A chegada dos eVTOLs inaugura uma nova etapa da aviação, marcada pela eletrificação, automação, conectividade e integração entre aeronaves, operadores, vertiportos, sistemas digitais e espaço aéreo. Entretanto, o avanço tecnológico não elimina um dos desafios mais antigos da segurança operacional: a possibilidade de existir uma distância entre aquilo que está previsto nos sistemas e aquilo que efetivamente acontece na operação.
Automação como parte de um sistema sociotécnico
A automação, nesse contexto, não deve ser compreendida apenas como substituição ou redução da atuação humana. Ela passa a integrar um sistema sociotécnico complexo, no qual decisões, informações, alertas, procedimentos e responsabilidades são distribuídos entre pessoas e tecnologias. Quando essa integração não corresponde à realidade operacional, pode surgir uma nova forma de desconexão: a operação pode parecer controlada pelos sistemas, enquanto determinadas condições, limitações ou riscos permanecem invisíveis.

O desafio específico dos eVTOLs
No universo dos eVTOLs, essa questão ganha uma dimensão ainda maior. A segurança dependerá de uma cadeia integrada na qual aeronave, piloto ou sistema de controle, operador, infraestrutura, manutenção, gestão do tráfego aéreo e sistemas de dados precisarão funcionar de maneira coordenada.
O papel do SGSO além da conformidade
Nesse contexto, o Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO) não pode ser tratado apenas como instrumento de conformidade documental ou como estrutura destinada a acompanhar indicadores. Sua efetividade estará na capacidade de enxergar a operação como ela realmente acontece — inclusive suas fragilidades, adaptações, desvios, limitações e condições latentes.
Riscos da automação mal calibrada
A automação pode ampliar a capacidade de monitoramento, processamento de dados e tomada de decisão, mas também pode criar novos riscos quando seus modelos, parâmetros ou informações não representam adequadamente as condições reais da operação. Por isso, quanto maior a dependência tecnológica, maior a necessidade de compreender como pessoas e sistemas interagem diante de situações normais, anormais e inesperadas.
O paradoxo da nova aviação
Aqui fica uma reflexão sobre um possível paradoxo da nova aviação: quanto mais sofisticada tecnologicamente se torna a operação, maior pode ser a necessidade de garantir que os sistemas automatizados permaneçam conectados à realidade humana e operacional.
A questão central deixa de ser apenas “o sistema está funcionando?” e passa a ser: “o sistema consegue perceber o que realmente está acontecendo?”.
A pergunta que fica
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que a Mobilidade Aérea Avançada precisará responder antes que o futuro decole.
“O sistema consegue perceber o que realmente está acontecendo?”
Referências
- Automation Induced Complacency — ResearchGate
- Sociotechnical Attributes of Safe and Unsafe Work Systems — PMC/NCBI
- Synergizing Innovation and Ethics for Mindful Safety Practices — ScienceDirect
- Designing for Doubt: Automation Complacency in AI Workflows — UXmatters
- Advanced Air Mobility & Safety Management Systems — NBAA
- Advanced Air Mobility | Air Taxis — FAA
- eVTOL Certification Challenges & Regulatory Frameworks — Unmanned Systems Technology





