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eVTOLs e Colisões com Aves: Estamos repetindo um problema conhecido?

Imagem virtual representando evtol compartilhando o espaço com os pássaros.
Foto de Flávio Santos

Flávio Santos

5 de agosto de 2026

Colaboração: Flávio Antonio Coimbra Mendonca Ph.D., MSc., MBA., FRAeS. Apesar da inovação, os eVTOLs enfrentarão um velho desafio: colisões com aves. Segurança, gerenciamento de fauna e dados serão essenciais desde o primeiro voo.

Quando pensamos na Mobilidade Aérea Urbana (Advanced Air Mobility – AAM), é natural imaginar aeronaves elétricas, baterias de última geração, inteligência artificial, automação e vertiportos espalhados pelas cidades. Entretanto, existe um desafio que acompanha a aviação desde seus primórdios e que continuará presente nessa nova realidade: as colisões entre aeronaves e aves. Embora os eVTOLs representem uma revolução tecnológica, eles operarão justamente na faixa do espaço aéreo onde a maior parte das colisões com aves ocorre. Isso significa que o problema não é novo. O que muda é o contexto operacional.

Um risco conhecido em uma nova operação

A maioria das colisões com aves ocorre durante as fases de decolagem, subida inicial, aproximação e pouso, normalmente em baixas altitudes. Coincidentemente, esse será o ambiente operacional predominante dos eVTOLs. Ao contrário da aviação comercial tradicional, que permanece grande parte do voo em altitudes elevadas, as aeronaves de Mobilidade Aérea Urbana passarão praticamente toda a missão dentro da chamada “zona de risco” para colisões com aves. Essa característica torna fundamental incorporar o gerenciamento do risco de fauna desde as fases iniciais de desenvolvimento da indústria.

Os eVTOLs podem ser mais vulneráveis?

Essa é uma pergunta que ainda está sendo investigada, mas existem razões para acreditar que, em determinadas situações, a resposta seja sim.

Os eVTOLs tendem a apresentar algumas características que merecem atenção:

  • menor porte;
  • menor massa;
  • rotores ou hélices distribuídas;
  • elevada frequência de operações;
  • voos repetitivos sobre corredores urbanos;
  • operação em baixas altitudes;
  • motores elétricos significativamente mais silenciosos;
  • operações em locais que, diferentemente dos aeroportos, normalmente não dispõem de programas estruturados de gerenciamento da fauna;
  • operações próximas a áreas naturalmente atrativas para aves e outros animais, como parques urbanos, áreas de preservação, e rios e lagoas.

A combinação desses fatores pode aumentar a exposição ao risco. Além disso, ainda existem importantes perguntas científicas sem resposta definitiva. Por exemplo: motores elétricos mais silenciosos reduzem a capacidade das aves perceberem a aproximação da aeronave? Como diferentes espécies responderão ao aumento dessas operações? Como as aves adaptarão seu comportamento a esse novo ambiente? Essas questões mostram que ainda há muito a ser pesquisado.

O que podemos aprender com os helicópteros?

Embora os eVTOLs representem uma nova categoria de aeronaves, seus perfis operacionais apresentam diversas semelhanças com os helicópteros. Ambos realizam operações em baixas altitudes, frequentemente sobre áreas urbanas, permanecem expostos ao risco durante praticamente todo o voo e possuem componentes críticos suscetíveis a impactos. Estudos envolvendo helicópteros demonstram que fatores como altitude, velocidade, tamanho da ave e período do dia influenciam significativamente a probabilidade de ocorrência e de dano. Essas informações representam um excelente ponto de partida para compreender os desafios que a Mobilidade Aérea Urbana enfrentará nos próximos anos.

O desafio vai além da aeronave

Na aviação convencional, aeroportos contam com programas estruturados de gerenciamento de fauna. Esses programas incluem monitoramento contínuo, manejo do habitat, controle de atrativos, avaliação de risco e coleta sistemática de dados. Mas como esse modelo funcionará quando existirem dezenas ou centenas de vertiportos distribuídos por uma cidade? Quem será responsável pelo gerenciamento da fauna? Como evitar que áreas próximas aos vertiportos atraiam aves? Como integrar operadores, municípios, autoridades ambientais e órgãos reguladores? Essas perguntas ainda não possuem respostas definitivas, mas certamente farão parte do futuro da Mobilidade Aérea Urbana.

Dados serão fundamentais

Uma das grandes vantagens da nova indústria é que ela poderá nascer em um ambiente altamente digital. Cada voo poderá gerar informações sobre localização, altitude, velocidade, condições ambientais e ocorrências envolvendo fauna. Esses dados poderão alimentar sistemas capazes de identificar corredores de maior risco, padrões sazonais e áreas críticas, permitindo uma gestão muito mais preventiva do que corretiva. Em vez de esperar que acidentes revelem vulnerabilidades, será possível identificar tendências antes que eventos graves ocorram.

Segurança desde o primeiro voo

A história da aviação demonstra que colisões com aves jamais serão completamente eliminadas. No entanto, elas podem ser significativamente reduzidas quando existe uma abordagem baseada em gerenciamento de riscos, coleta de dados, melhoria contínua e cultura de segurança.

A Mobilidade Aérea Urbana possui uma oportunidade rara. Diferentemente da aviação convencional, que construiu seu conhecimento ao longo de décadas, os operadores de eVTOL podem iniciar suas operações aprendendo com mais de um século de experiência acumulada. A tecnologia dos eVTOLs representa uma inovação extraordinária. Entretanto, seu sucesso dependerá não apenas de baterias mais eficientes, sistemas de propulsão avançados ou inteligência artificial. Dependerá também da capacidade da indústria de reconhecer que alguns desafios permanecem os mesmos e que as melhores soluções muitas vezes já começaram a ser construídas pela aviação tradicional. Se quisermos que a Mobilidade Aérea Urbana seja sinônimo de inovação, ela também deverá ser sinônimo de segurança. E isso começa muito antes do primeiro acidente.

Especialista em Segurança Operacional da Aviação, com ampla experiência em prevenção e investigação de acidentes aeronáuticos, fatores humanos e gerenciamento de riscos. Doutor em Aviation Technology pela Purdue University (EUA), Mestre em Aviation Safety pela University of Central Missouri (EUA), MBA em Advanced Process Management pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Bacharel em Ciências Aeronáuticas pela Academia da Força Aérea (AFA). Fellow da Royal Aeronautical Society (FRAeS), dedica-se ao desenvolvimento de estudos e pesquisas voltados à segurança operacional e às novas tecnologias da Mobilidade Aérea Urbana, incluindo os eVTOLs.

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Flávio Santos

Certificado em Segurança de Voo pelo CENIPA | Profissional em Fotografia e Design Gráfico | Graduado em Letras - Língua Portuguesa pela UnB

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